Telefones celulares no quarto: como eles interferem no ambiente?
Nenhum elemento é mais definidor de um quarto que camas e colchões. Eles são os itens que caracterizam o espaço no qual descansamos à noite. Por outro lado, há elementos que não são exatamente próprios do ambiente de descanso e, de uns 20 anos para cá, passaram a compô-los. Quais são as implicações de estarmos com os telefones celulares no quarto? Como eles interferem no ambiente?
Temos que reconhecer que os smartphones não são os primeiros equipamentos eletrônicos com tela a ganharem o ambiente de descanso. Em vários lares Brasil afora, as televisões já tinham ocupado um espaço no quarto e esse fenômeno ficou ainda mais recorrente com o advento das TVs de tela plana.
Contudo, os telefones celulares tornaram-se instrumentos muito mais presentes nas nossas rotinas do que qualquer outro aparelho eletrônico. Diversas dimensões da nossa vida são acompanhadas por aplicações nos nossos dispositivos: da prática de atividade física ao acompanhamento da nossa alimentação, passando pelas finanças, contatos profissionais e pessoais… Há sempre um pedaço da nossa vida “morando” em um aplicativo - e parece esses “pedaços” serão ainda maiores com a popularização da inteligência artificial. Mas será que precisamos dos smartphones até na hora de dormir? Os telefones celulares no quarto interferem no ambiente?
Luz azul, ciclo circadiano e higiene do sono
Parte do prejuízo que os dispositivos móveis trazem para o nosso sono são explicados por bilhões de anos de evolução das espécies, mais especificamente por uma adaptação desenvolvida pelos vertebrados: os fotopigmentos, proteínas que captam luz em comprimentos de ondas específicos. Eles normalmente existem em nossos olhos, mas alguns peixes, anfíbios e répteis os possuem até na pele!
Na retina dos mamíferos existe a melanopsina, um fotopigmento responsável por captar a luz azul. A cor não é à toa: assim como os seres humanos, diversas outras espécies de mamíferos são regulados pelo ciclo circadiano, ou seja, despertam com o amanhecer do dia e realizam todas as suas atividades no período diurno. Os organismos dos mamíferos evoluíram para regular diversos ciclos hormonais a partir do “gatilho” da captação da luz da cor do céu.
A produção de vários hormônios - principalmente a melatonina, o hormônio do sono - é regulada pelo núcleo supraquiasmático, uma estrutura do cérebro que tem a função de transmitir a informação captada pela retina às glândulas, que produzem os hormônios. Aí mora o primeiro impacto gerado pelos telefones celulares no quarto: eles também emitem luz azul. Estudos já demonstraram que a emitida por tablets e smartphones suprime a produção de melatonina atrasando o adormecimento e reduzindo a quantidade de tempo passado em sono REM, a última das fases do sono.

Se para os adultos a utilização de dispositivos móveis antes de dormir é prejudicial, o uso de telas por crianças atualmente é um dos principais responsáveis pela baixa qualidade do sono na infância. Nessa fase, a utilização de smartphones e tablets é ainda mais preocupante porque as crianças precisam dormir muito - a recomendação da Sociedade Brasileira de Pediatria é que, até os 12 anos, as crianças durmam, no mínimo, por 10h30 em cada noite.
Telefones celulares no quarto: como eles interferem no ambiente, mesmo desligados
Há alguns anos a Ciência - mais especificamente a Neuroarquitetura - vem estudando como os espaços influenciam nossas emoções e comportamentos. Sob o viés do design e arquitetura do sono, profissionais analisam e projetam quartos para resguardá-lo ao repouso, tendo como única exceção os momentos de intimidade, como o sexo. Em outras palavras, o ambiente de descanso deve ser espaço de bem estar e saúde.
Por esse prisma, o lugar dos telefones celulares é fora do quarto. E mesmo que eles estejam desligados, sua simples presença influencia na higiene do sono. Isso porque ele provoca um efeito denominado “drenagem cerebral”: o impacto negativo na nossa performance cognitiva provocada pelo esforço inconsciente, mas contínuo, do cérebro para inibir nosso impulso automático de checar o dispositivo. Por causa desse esforço inconsciente, o cérebro demora mais a sair do estado de vigília.
O ambiente de descanso afeta suas emoções e o inconsciente estado de maior atenção gerado pelos telefones celulares impacta na qualidade do seu descanso noturno. Como dissemos no início do texto, camas, colchões, travesseiros e roupas de cama são os componentes do quarto que incentivam o inconsciente a entrar em modo de repouso total.
As práticas de higiene do sono recomendam que o uso de telas deve ser encerrado no mínimo com uma hora de antecedência em relação ao momento de ir dormir. Os dispositivos móveis devem ficar fora do quarto e serem utilizados apenas na manhã do dia seguinte.

Acostumamo-nos a estar o tempo todo com os smartphones mas há 20 anos eles não existiam. Noites de sono mais longas podem estar na retomada de hábitos nem tão velhos assim; um tempo no qual não levávamos um pequeno computador para nossas cabeceiras.