Oito horas de sono seguidas: por que precisamos descansar por um terço do dia?
Há certas informações com as quais convivemos desde jovens que, às vezes, soam como leis: “beber certa quantidade de água diariamente é importante”; “sedentarismo reduz a expectativa de vida”; ou “vegetais favorecem enormemente nosso metabolismo”. Também nos acostumamos a ouvir que oito horas de sono seguidas são muito importantes para o nosso bem estar e saúde. Essa informação é verdadeira? Se sim, por que precisamos descansar ininterruptamente por aproximadamente um terço do dia?
Se você está seguro que isso é verdade, talvez esteja se perguntando o porquê deste texto existir. Para responder sua indagação, vamos recorrer a Yuval Noah Harari, professor do Departamento de História de Jerusalém e um dos pensadores mais respeitados da atualidade. Em entrevista de outubro de 2024, ele afirmou: “informação e verdade não são sinônimos, a maioria da informação disponível atualmente é lixo. Para escrever a verdade, você precisa investir muito tempo, esforço e dinheiro, tanto em pesquisa quanto na verificação dos fatos, enquanto a mentira é extremamente barata”.
Nas atuais discussões sobre os limites éticos da tecnologia, especialmente em tempos de inteligência artificial, nos deparamos frequentemente com discussões sobre a pós-verdade. O termo, que até ganhou definição pela Academia Brasileira de Letras, significa “contexto em que asserções, informações ou notícias verossímeis, caracterizadas pelo forte apelo à emoção, e baseado em crenças pessoais ganham destaque, sobretudo social e político, como se fossem fatos comprovados ou a verdade objetiva”. O desafiante compromisso com a verdade tornou-se muito mais complexo depois da Internet e da IA.
A mentira é muitas vezes mais barata do que a verdade. Mas exatamente por esta ser muito mais valiosa, que este texto existe. Nele vamos explicar porque devemos nos esforçar para alcançar as oito horas de sono seguidas, todas as noites.
A história do sono (e do debate)
Pelo que a ciência descobriu até hoje, os seres humanos sempre dormiram horas seguidas. Uma pesquisa feita com tribos de caçadores-coletores na África - grupos cujo estilo de vida ainda é muito semelhante ao da humanidade pré-industrial - mostra que eles dormem, ininterruptamente, por um período de seis a sete horas.

Exatamente por dormirmos horas ininterruptas à noite durante toda a história humana que a necessidade de oito horas seguidas entrou no debate, e em um período histórico no qual esse hábito foi colocado em risco. Durante a II Revolução Industrial, quando trabalhadores passavam mais de 15 horas por dia nas fábricas, um ativista liderou um movimento trabalhista que propunha a divisão do dia em três partes iguais. Robert Owen, em 1817, criou o lema que defendia oito horas para o trabalho, oito para recreação e oito para o descanso.
A legislação trabalhista se consolidou no início do século XX e, anos depois, a ciência avançou para confirmar a necessidade biológica de dormir oito horas seguidas. A pioneira e principal contribuição foi do médico Nathaniel Kleitman, professor da Universidade de Chicago. Junto de um dos seus alunos, Eugene Aserinsky, ele identificou em 1953 o sono REM, a última das fases do sono. Kleitman provou que o sono não é um desligamento passivo do cérebro, mas um processo neurológico ativo e vital. Suas pesquisas estabeleceram as bases das pesquisas contemporâneas que comprovaram que em períodos de sono longo e contínuo, regeneramos nossos sistemas biológicos.
Oito horas de sono seguidas: qual a parte não é verdade?
Se você ler em algum lugar ou ouvir de alguém que oito horas de sono seguidas não é a recomendação médica para favorecer seu bem estar e saúde, talvez isso seja uma verdade; mas com certeza a recomendação será de mais de oito horas de sono seguidas.
Sim, não precisamos de oito horas ininterruptas ao longo de toda a vida. Na infância e adolescência precisamos de ainda mais, de acordo com a recomendação da Sociedade Brasileira de Pediatria, reafirmando um consenso da Academia de Medicina do Sono dos Estados Unidos:
- Dos 3 a 5 anos → 10 a 13 horas
- Dos 6 a 12 anos → 9 a 12 horas
- Dos 13 aos 18 anos → 8 a 10 horas
Crianças de três a cinco anos podem manter o hábito de sonecas diurnas. Contudo, a recomendação é que eles durmam pelo menos dez horas seguidas à noite.
Dormir muitas horas de forma ininterrupta é uma importante prática de autocuidado, assim como atividade física regular e alimentação balanceada. Depois do primeiro ano de vida, dormir pelo menos oito horas seguidas à noite sempre será o hábito recomendado para favorecer seu bem estar e saúde.

E tão importante quanto oito horas de sono seguidas é a busca pela verdade. Informe-se a partir de fontes confiáveis, que estão embasadas na ciência. Mentiras e desinformação trazem prejuízos em diversas esferas da vida humana - e a sua saúde é um dos principais alvos.